
A cena é famosa: Um homem conversa com um gangster. È o casamento da filha do grande “padrinho”. Sentado, acariciando um gato, terno preto adornado com uma rosa e manchas negras onde deveriam estar os olhos. Don Corleone se levanta, caminha, fala, sempre com aquela luz que vem de cima, projetando profundas sombras onde estariam seus olhos. Imponente, misterioso, poderoso.
Tirando a brilhante atuação de Marlon Brando, o grande trunfo da caracterização do personagem é o modo como ele foi fotografado. Se os olhos sombrios se tornaram marca registrada de Don Corleone, as sombras sempre foram o território de Gordon Willis.
Poucos cinematógrafos (termo americano para os diretores de fotografia) foram tão influentes e únicos como Gordon Willis. Sua originalidade no trato com filtros e cores e – principalmente – seu modo genial de utilizar sombras e silhuetas o colocam em destaque como um dos maiores diretores de fotografia dos últimos 50 anos.
Tão grande é sua maestria no uso das sombras que seu amigo, e também consagrado diretor de fotografia, Conrad Hall (Beleza americana, Estrada para Perdição, Butch & Cassidy, recebendo Oscars por todos eles) o apelidou de “Príncipe das Sombras”.
De fato, o estilo de Gordon Willis é bastante único, sendo inspiração para fotógrafos de todo o mundo. Gostava especialmente de filmar em planos longos, à distância. Disse certa vez que “Existe muito drama em uma pessoa em meio a muito espaço. Prefiro ver uma soprano morrendo de tuberculose em uma tomada longa, para dar distância, do que 29 closes dela tossindo COF COF COF.”
Mas o que realmente marcou sua carreira foi o modo como utiliza o negro para compor seus enquadramentos. Alguns de seus melhores trabalhos, como a trilogia do poderoso Chefão e Manhattan, Zelig, Annie Hall, frutos de sua parceria com Woody Allen, apresentam os planos mais marcantes quase que totalmente na escuridão. Mesmo com cenários intencionalmente não iluminados, o trabalho de câmera é feito de modo que não se perca a ação, mesmo em meio às sombras.
Apesar de seu grande renome em meio aos cinematógrafos, Willis jamais recebeu um Oscar. Isso porque sempre trabalhou longe do eixo “Hollywoodiano”, focando seus trabalhos na costa leste, onde nasceu e onde ainda mora; Willis deixou de fazer filme a quase uma década, porém a sombra de seu imenso talento ainda inspira e impressiona.
Foto do filme Annie Hall, de Woody Allen:

Fotos do filme Manhattan, também de Woody Allen:
1.

2.

Gustavo Yuki Miyakawa
Nenhum comentário:
Postar um comentário