
Antes era um grande elogio dizer ao cineasta Wim Wenders que ele conseguiu uma bela imagem; hoje, no entanto, estas palavras não bastam. A evolução natural do trabalho de um realizador levou Wenders a perceber que “as imagens tem que ser amarradas por uma história” e foi neste ponto que Wim se esmerou: contar histórias.
O começo foi no interior da Alemanha, em Munique, no pós-guerra. Wim nasceu apenas 15 dias antes do fim da II Guerra Mundial. Quando garoto, sonhou em virar padre, porém, o fantástico o atraía mais, as brincadeiras com as fantasias que emprestava dos primos é que instigavam sua imaginação. Logo veio a paixão pela fotografia, aos 7 anos. Aos dezessete Wim ganhou sua primeira câmera: uma Leica. Essa paixão pela fotografia contribui imensamente para a realização de seus filmes.
Em 1967 Wenders entrou para a Escola Superior de Cinema e Televisão, em Munique. Wenders assistiu a mais de mil filmes para ser aceito na escola. Enquanto estudava, começou a dedicar-se à crítica cinematográfica. Em uma entrevista a revista Bravo no ano 2000, Wenders comentou o papel do crítico da seguinte forma: “Hoje a crítica faz parte da indústria, é mais um serviço que uma instituição independente... O que gostava na crítica era essa capacidade de atrair o espectador para o filme, de falar em experiências, de explicar o contexto. A última coisa que me interessa é que alguém me diga se o filme é bom ou ruim. Quero decidir isso eu mesmo.

Eu tinha uma regra própria: só escrevia sobre filmes dos quais havia gostado. Hoje, tenho a impressão de que a maior parte da crítica faz o contrario”.
Outro aspecto indispensável nas obras de Wenders é a música. Para ele, sem música as imagens estariam nuas. Ele ainda vai além dizendo que cinema e Rock’n’roll são as duas expressões contemporâneas mais precisas. A literatura e o teatro são demasiado lentas para expressar o frenesi moderno. Um de seus filmes,
Alice in the Cities (1973), surgiu através de uma canção de Chuck Berry, numa daquelas situações em que uma música não sai da cabeça. Outro filme diretamente ligado à música é o
Hotel de um milhão de Dólares. A idéia deste filme surgiu a partir de uma sugestão feita pelo amigo Bono Vox, vocalista da banda U2. Wenders ainda procura a fórmula para fazer um filme que fosse como uma canção de Rock’n’roll.
Tudo ótimo na receita de um cineasta por excelência que consideraria o cinema a mais nobre e mais completa forma de expressão. Mas neste ponto ele surpreende: a imagem parada o agrada mais que a imagem em movimento. Em sua concepção, a fotografia e a pintura podem ser apreciadas e pensadas por mais tempo, além de não serem tão agressivas quanto a imagem em movimento. Como prova disso tem-se o ótimo trabalho de fotógrafo de Wim Wenders, que já lançou oito livros de fotografia.
Segue abaixo uma amostra.

Mas ainda assim Wenders vem se aperfeiçoado na arte de contar histórias através da imagem em movimento. Para tanto, criou algumas máximas que podem nortear a digestão de um filme: o enquadramento tem a ver com o que você quer deixar para contar na história; caso alguém não queira guardar algumas imagens e percebe isso logo nos primeiros minutos de um filme, saia.
A importância de Wim Wenders como realizador não se resume a pequenos círculos de admiradores. Na década de 70 e 80, junto com Rainer Fassbinder e Werner Herzog, ele revolucionou o cinema alemão. De acordo com o próprio Wenders foi a última vez que o cinema de autor pode irromper de forma clara e maciça, com forca econômica e continuidade, não apenas como um fenômeno esporádico. Mas ele reconhece que suas últimas experiências com o cinema de autor foi na transição da década de 80 para 90. Seus filmes mais atuais já foram produzidos com produtores, roteiristas, ou seja, não eram um filme de uma cabeça só.
Paris, Texas, é um destes filmes de Wenders que se pode encaixar no sua produção autoral. Desde a abordagem da personalidade das personagens a escolha do enquadramento, passando pela sensibilidade da fotografia, há a marca de Wim Wenders.