quarta-feira, 6 de maio de 2009

Personagens - Paris,Texas - Wim Wenders

Travis



Homem que fala muito pouco, mas que através de seu silêncio é capaz de expressar muitas informações em relação à sua história. Personagem que passa de um caráter enigmático no começo do filme para revelar-se um homem devastado pelo poder de valores e sentimentos corriqueiros, como a família e o amor conjugal. Não há em sua trajetória nenhum acontecimento que seja alheio aos problemas reais. Apesar de estar aparentemente perturbado durante todo o filme, a angústia de Travis é fruto de ações reais, de suas ações reais. É um personagem que durante o filme vai demonstrando sua simplicidade e a normalidade de seus problemas.

Walter

O oposto de seu irmão Travis. Um homem que fala muito, e atrás que cada palavra que diz esconde sua essência. Falando, talvez, Walter mantém-se camuflado na impessoalidade. Ao contrário de Travis ele, aparentemente, não tem a vida permeada de problemas, mas a relação fria com a família e a dedicação ao trabalho demonstram um possível grande problema: Walter anula sua personalidade.
Seu pai dizia sempre que conheceu sua mãe em Paris, após o deleite (próprio e dos outros) ele concluía: Texas. Pelo que diz Travis, seu pai adoraria que sua mãe fosse efetivamente uma parisiense. Para completar a personalidade de Walter, vale lembrar que sua esposa era francesa, ou seja pode-se entender que Walter esteja casado com ela por um reflexo de um desejo do pai, o que apaga ainda mais sua individualidade.

Paris, Texas - Wim Wenders



Resumo da ação do Filme.


Um homem aparece no deserto sedento por água. Mojave, é o que vem escrito na placa. Ele está à espera, e à procura de reconstruir sua vida. Travis, solitário, revê seu filho após ter sumido durante longos quatro anos. Seu irmão Walter, cuidou de Hunter até então. Travis quer desfazer o malfeito do passado, e junto com o filho vai em busca da mãe, Jane. O pai descobre que Jane trabalha como strip-tease, e aparece em uma de suas sessões – marcadas numa cabine, com vidro espelhado – e conta causos da sua vida em terceira pessoa. A mãe o reconhece, quer vê-lo. Travis dá o endereço do hotel onde está o filho e mais uma vez desaparece.


Comentários

A fotografia de Rubby Müller no filme Paris, Texas, tem um peso na narrativa tão forte quanto a música presente. As cores predominantes durante todo o filme são o vermelho e o verde. As cores aparecem tanto em objetos, quanto na iluminação. Elas são extremamente importantes para contextualizar o sentimento dos personagens e cada momento do filme. O contraste e o enquadramento são muito peculiares; mesmo tendo apenas uma cena do filme em plano fechado – na parte em que Travis abre a garrafa para beber a água.

O enquadramento aberto do filme constrói imagens de forma a duas ações ocorrerem no mesmo plano. Temos uma idéia de ubiqüidade, conhecer um segredo que o personagem que divide o plano, separado por uma parede, não conhece. O mesmo enquadramento nos mostra o que está acontecendo, mas esconde da personagem. Na cena em que Walter sobe as escadas para dormir enquanto Travis está na sala onde sua cama foi arrumada, vê-se com exatidão esta técnica.

Outro fator que influencia o filme é o espaço. O lugar onde as ações acontecem funciona como um personagem. Seja o deserto pela suas cores vivas e por suas implacáveis características climáticas, ou seja por uma Los Angeles esverdeada, vista panoramicamente, e cheia de ruídos de áudio que acentuam os conflitos psicológicos de Travis.

Uma característica vista em outros filmes de Wenders, que também aparece no Paris, Texas, é a metalinguagem. Quando é projetado o vídeo de família filmado em super-8, um breve comentário nos remete a toda a discussão da realidade das imagens: “aquela não era ela, era a imagem dela”.

Prêmios:
1984 Cannes, Golden Palm (Best Film)
1984 British Academy Award
1984 French Film Critic's Prize
1984 German Film Prize in Silver (Production)


Cena inicial do filme.

Wim Wenders, filmografia.

Longa-metragem

1970 Summer in the City
1971 The Goalkeeper's Fear of the Penalty
1972 The Scarlet Letter
1973 Alice in the Cities
1975 Wrong Move
1976 Kings of the Road
1977 The American Friend
1982 The State of Things
1982 Hammet
1984 Paris, Texas
1985 Tokyo-Ga
1987 Wings of Desire
1991 Until the End of the World
1993 Faraway, So Close!
1994 Lisbon Story
1995 Beyond the Clouds (with Michelangelo Antonioni)
1996 A Trick of the Light
1997 The End of Violence
1998 Buena Vista Social Club
2000 The Million Dollar Hotel
2003 Land of Plenty
2004 Don't Come Knocking

Documentários

1980 Lightning over Water
1982 Reverse Angle
1982 Chambre 666 (Room 666)
1985 Tokyo-Ga
1989 Notebook on Cities and Clothes
1998 Willie Nelson at the Teatro
1998 The Buena Vista Social Club
2002 Ode to Cologne / Viel Passiert - Der BAP Film
2003 The Soul of a Man (part four of the PBS series The Blues)


Curta-metragem

1967 Schauplätze
1967 Same Player Shoots Again
1968 Silver City
1968 Polizeifilm
1969 Alabama: 2000 Light Years from Home
1969 3 American LP's
1974 The Island / From the Family of Reptiles
1982 Reverse Angle
1982 Chambre 666 (Room 666)
1992 Arisha, the Bear and the Stone Ring
2002 Ten Minutes Older

Wim Wenders, biografia.



Antes era um grande elogio dizer ao cineasta Wim Wenders que ele conseguiu uma bela imagem; hoje, no entanto, estas palavras não bastam. A evolução natural do trabalho de um realizador levou Wenders a perceber que “as imagens tem que ser amarradas por uma história” e foi neste ponto que Wim se esmerou: contar histórias.

O começo foi no interior da Alemanha, em Munique, no pós-guerra. Wim nasceu apenas 15 dias antes do fim da II Guerra Mundial. Quando garoto, sonhou em virar padre, porém, o fantástico o atraía mais, as brincadeiras com as fantasias que emprestava dos primos é que instigavam sua imaginação. Logo veio a paixão pela fotografia, aos 7 anos. Aos dezessete Wim ganhou sua primeira câmera: uma Leica. Essa paixão pela fotografia contribui imensamente para a realização de seus filmes.

Em 1967 Wenders entrou para a Escola Superior de Cinema e Televisão, em Munique. Wenders assistiu a mais de mil filmes para ser aceito na escola. Enquanto estudava, começou a dedicar-se à crítica cinematográfica. Em uma entrevista a revista Bravo no ano 2000, Wenders comentou o papel do crítico da seguinte forma: “Hoje a crítica faz parte da indústria, é mais um serviço que uma instituição independente... O que gostava na crítica era essa capacidade de atrair o espectador para o filme, de falar em experiências, de explicar o contexto. A última coisa que me interessa é que alguém me diga se o filme é bom ou ruim. Quero decidir isso eu mesmo. Eu tinha uma regra própria: só escrevia sobre filmes dos quais havia gostado. Hoje, tenho a impressão de que a maior parte da crítica faz o contrario”.

Outro aspecto indispensável nas obras de Wenders é a música. Para ele, sem música as imagens estariam nuas. Ele ainda vai além dizendo que cinema e Rock’n’roll são as duas expressões contemporâneas mais precisas. A literatura e o teatro são demasiado lentas para expressar o frenesi moderno. Um de seus filmes, Alice in the Cities (1973), surgiu através de uma canção de Chuck Berry, numa daquelas situações em que uma música não sai da cabeça. Outro filme diretamente ligado à música é o Hotel de um milhão de Dólares. A idéia deste filme surgiu a partir de uma sugestão feita pelo amigo Bono Vox, vocalista da banda U2. Wenders ainda procura a fórmula para fazer um filme que fosse como uma canção de Rock’n’roll.

Tudo ótimo na receita de um cineasta por excelência que consideraria o cinema a mais nobre e mais completa forma de expressão. Mas neste ponto ele surpreende: a imagem parada o agrada mais que a imagem em movimento. Em sua concepção, a fotografia e a pintura podem ser apreciadas e pensadas por mais tempo, além de não serem tão agressivas quanto a imagem em movimento. Como prova disso tem-se o ótimo trabalho de fotógrafo de Wim Wenders, que já lançou oito livros de fotografia. Segue abaixo uma amostra.






Mas ainda assim Wenders vem se aperfeiçoado na arte de contar histórias através da imagem em movimento. Para tanto, criou algumas máximas que podem nortear a digestão de um filme: o enquadramento tem a ver com o que você quer deixar para contar na história; caso alguém não queira guardar algumas imagens e percebe isso logo nos primeiros minutos de um filme, saia.

A importância de Wim Wenders como realizador não se resume a pequenos círculos de admiradores. Na década de 70 e 80, junto com Rainer Fassbinder e Werner Herzog, ele revolucionou o cinema alemão. De acordo com o próprio Wenders foi a última vez que o cinema de autor pode irromper de forma clara e maciça, com forca econômica e continuidade, não apenas como um fenômeno esporádico. Mas ele reconhece que suas últimas experiências com o cinema de autor foi na transição da década de 80 para 90. Seus filmes mais atuais já foram produzidos com produtores, roteiristas, ou seja, não eram um filme de uma cabeça só.

Paris, Texas, é um destes filmes de Wenders que se pode encaixar no sua produção autoral. Desde a abordagem da personalidade das personagens a escolha do enquadramento, passando pela sensibilidade da fotografia, há a marca de Wim Wenders.