quinta-feira, 25 de junho de 2009

Gordon Willis



A cena é famosa: Um homem conversa com um gangster. È o casamento da filha do grande “padrinho”. Sentado, acariciando um gato, terno preto adornado com uma rosa e manchas negras onde deveriam estar os olhos. Don Corleone se levanta, caminha, fala, sempre com aquela luz que vem de cima, projetando profundas sombras onde estariam seus olhos. Imponente, misterioso, poderoso.

Tirando a brilhante atuação de Marlon Brando, o grande trunfo da caracterização do personagem é o modo como ele foi fotografado. Se os olhos sombrios se tornaram marca registrada de Don Corleone, as sombras sempre foram o território de Gordon Willis.

Poucos cinematógrafos (termo americano para os diretores de fotografia) foram tão influentes e únicos como Gordon Willis. Sua originalidade no trato com filtros e cores e – principalmente – seu modo genial de utilizar sombras e silhuetas o colocam em destaque como um dos maiores diretores de fotografia dos últimos 50 anos.

Tão grande é sua maestria no uso das sombras que seu amigo, e também consagrado diretor de fotografia, Conrad Hall (Beleza americana, Estrada para Perdição, Butch & Cassidy, recebendo Oscars por todos eles) o apelidou de “Príncipe das Sombras”.

De fato, o estilo de Gordon Willis é bastante único, sendo inspiração para fotógrafos de todo o mundo. Gostava especialmente de filmar em planos longos, à distância. Disse certa vez que “Existe muito drama em uma pessoa em meio a muito espaço. Prefiro ver uma soprano morrendo de tuberculose em uma tomada longa, para dar distância, do que 29 closes dela tossindo COF COF COF.”

Mas o que realmente marcou sua carreira foi o modo como utiliza o negro para compor seus enquadramentos. Alguns de seus melhores trabalhos, como a trilogia do poderoso Chefão e Manhattan, Zelig, Annie Hall, frutos de sua parceria com Woody Allen, apresentam os planos mais marcantes quase que totalmente na escuridão. Mesmo com cenários intencionalmente não iluminados, o trabalho de câmera é feito de modo que não se perca a ação, mesmo em meio às sombras.

Apesar de seu grande renome em meio aos cinematógrafos, Willis jamais recebeu um Oscar. Isso porque sempre trabalhou longe do eixo “Hollywoodiano”, focando seus trabalhos na costa leste, onde nasceu e onde ainda mora; Willis deixou de fazer filme a quase uma década, porém a sombra de seu imenso talento ainda inspira e impressiona.



Foto do filme Annie Hall, de Woody Allen:



Fotos do filme Manhattan, também de Woody Allen:

1.



2.



Gustavo Yuki Miyakawa

terça-feira, 9 de junho de 2009

Anabazys - Paloma Rocha e Joel Pizzini (2007)


Se o intuito de Paloma Rocha e Joel Pizzini, ao produzir Anabazys (2007) era prolongar o sentimento causado por A Idade da Terra (1980), o objetivo foi atingido. Pelo menos eu fui atingido. Adotei uma postura de respeito à obra desde que soube do lançamento, crendo no princípio de que uma filha não seria acometida de mal-entendidos ao interpretar a obra do pai. É verdade também que as poltronas do Cine Luz já me incitam o respeito à obra exibida. Esse sentimento de respeito foi responsável por grande parte da minha percepção do filme. Tive medo de arriscar interpretações, medo de criticar a obra da família Rocha, medo de ser mais um a crucificar glauber, como no festival de Veneza.
Em certo ponto rompi com o respeito. Arrependo-me. Cheguei a pensar que Anabazys deveria assumir uma linguagem especificamente documental, nos moldes tradicionais. Durante as entrevistas coletadas pelos cineastas, minha mente fixava-se em uma pergunta vazia: “cadê os créditos?”. Um mês depois de assistir ao filme eu me arrependo de ter pensado isso. Por, pelo menos, dois motivos: Não se pode, tendo uma ligação emocional e intelectual tão forte com a obra de Glauber (como suponho ter a filha), falar sobre seu filme-testamento de forma tão direta.
O segundo motivo é mais simples: causaria-me estranheza ainda maior ver a obra de Glauber dentro dos formatos de um documentário do que da maneira onírica abordada por Paloma Rocha e Joel Pizzini. Seria, para mim, como explicar o fim de uma piada. Prefiro tê-la entendido um mês depois.


Espero que a primeira pessoa do texto convença que essas são apenas sugestões; idiossincrasias.

João Guilherme

Análises

Análises dos filmes de Michael Haneke, partindo do tema MEDO. Os textos foram elaborados para o núcleo Audiovisual.

Violência Gratuita (2007)



Além dos óbvios motivos causadores de medo neste filme, alguns detalhes servem como catalisadores das ações principais. O fato de a personagem dialogar com o especatdor, o imerge na obra, e em alguns instantes até o faz sentir-se culpado pelo desastre do enredo. Como quando a personagem Paul dirige-se ao público dizendo que ele espera isso, que o desastre subsequente é culpa de quem assiste ao filme e espera dele uma trama com ápice.
O filme choca tanto por ser uma afronta maior aos espectadores que às proprias personagens do filme. Durante nossa cena de redenção, noa ápice da catárse, quando a personagem Ann consegue sacar a arma, e com a força dos dedos de todos os espectadores, atirar em Peter, somos deslocados. É como se a personagem Paul invadisse a sala de quem assiste ao filme, e arrancasse o controle remoto de sua mão. Frustra. Nesse momento o espectador é conduzido ao medo por não ter o controle da situação, nem mesmo o controle remoto o pertence mais, e quem manda no filme é uma personagem que já demontrou inúmeros atos de barbárie. O filme então começa a se arrastar nas promessas das personagens, que já se apresentaram como capazes de cumpri-la, e a angústia do espectador aumenta na mesma proporção que diminuem as aparentes esperanças. Mais uma vez o espectador não tem segredos em relação a personagem e uma solução não se anuncia.
Além dos fatores citados acima, o medo nesse filme é causado por personagens que não diferem do meio social. A aparência e o comportamento de Peter e Paul são aceitos como normalmente pertencentes à sociedade. É o fator da proximidade; do desconhecido que pode se enconder no próximo.


Caché (2005)



O filme, logo no início já anuncia sua maneira de causar medo e apreensão no espectador: planos longos, com pouco movimento de câmera e pouco movimento de personagens e elementos. Ao contrário do terror tradicinal que é imposto através de imagens vertiginosas, o filme Caché nos deixa apreensivos através de um hábito dos espectadores: a impaciência. O fato de quem assiste ao filme não saber mais sobre a trama do que as personagens, iguala os medos. Não temos um segredo guardado. Não vemos uma cena de um núcleo oposto que possa interferir positivamente no núcleo principal. Não há um anúncio de salvação.
Outro fato interessante da obra é a virtualidade dos medos. Em momento algum há uma real aparição do “algo” maligno. São sempre reproduções, suposições que nos amedrontam. Soma-se a essas suposições, nossa predisposição ao medo; concretiza-se então o sentimento. Não do real, mas da nossa interpretação tendenciosa de uma reprodução do real.
O medo de sair de casa acaba por isolar as personagens, e esse isolamento as leva a uma aversão ao convívio social. Um conjunto de símbolos se une na mente já perturbada das personagens e as forçam a um isolamento. É o medo do descolnhecido que as obriga a permanecer cada vez mais no ambiente conhecido, onde a falta de proteção parece que não os encontrará.



João e Mariana.